Vibe lawyering: o Direito não pode ser conduzido apenas na “vibe”
O “vibe coding” mostra até onde a intuição leva — e exatamente onde ela para. No Direito, a distância entre uma resposta plausível e uma resposta correta se mede em consequências.
O chamado vibe coding é fantástico.
O que é vibe coding
Para quem ainda não conhece, é a possibilidade de construir sistemas e produtos digitais conversando com uma inteligência artificial. Você explica, com suas próprias palavras e mesmo sem conhecimento técnico, o que quer, testa, pede ajustes, apresenta os erros e vai construindo. A IA vai “codando”.
Eu mesmo venho usando muito.
Não sou programador de formação, mas hoje consigo discutir produtos, funcionalidades, fluxos e interfaces diretamente com ferramentas de IA. Isso reduziu bastante a distância entre ter uma ideia e conseguir colocar algo funcional de pé.
O que é “vibe lawyering”
Agora surgiu uma expressão irmã: “vibe lawyering”.
Em português didático, eu chamaria de advocacia no improviso com IA ou advocacIA.
É quando alguém apresenta um problema ao ChatGPT, Claude ou outro modelo, recebe uma análise escrita e passa a tratar aquela resposta como se já tivesse uma opinião jurídica pronta.
Isso também já chegou à minha rotina.
Não é raro um cliente procurar o escritório, apresentar um contrato ou processo, pedir uma proposta de honorários e dizer:
“Eu já coloquei tudo no Claude ou no ChatGPT. Ele fez uma análise, mas eu gostaria de ouvir a sua opinião.”
E, sinceramente, acho isso ótimo.
O cliente chega mais informado, já identificou algumas dúvidas, conhece parte do vocabulário e consegue ter uma conversa melhor com o advogado.
A IA pode ampliar muito o acesso à informação jurídica. Pode ajudar uma pessoa a organizar os fatos, entender um documento, conhecer possíveis direitos e até formular perguntas melhores.
Os riscos de confiar só na IA
O problema começa quando uma resposta bem escrita é confundida com uma resposta correta.
No vibe coding, um erro de código pode derrubar uma página, quebrar uma funcionalidade ou gerar um bug.
No Direito, um erro pode fazer alguém perder um prazo, assinar um contrato ruim, desistir de um bom acordo, adotar uma estratégia equivocada ou citar um precedente que nem sequer existe.
O papel do advogado na era da inteligência artificial
E, na minha visão, essa realidade fortalece ainda mais a importância de um bom advogado.
Existem pontos que a IA simplesmente não “pesca”. Peculiaridades que não estão no papel ou, mais precisamente, no PDF.
Muitas vezes, o que muda completamente uma análise está na história por trás do documento, na relação entre as partes, em uma informação que o cliente não considerou relevante, na postura da contraparte, no momento do negócio ou em algo que só aparece durante uma boa conversa.
A IA analisa aquilo que recebeu. Um advogado experiente também procura aquilo que não foi contado.
A IA reconhece padrões. O advogado precisa avaliar os documentos, as provas, o contexto, os riscos, os custos, a contraparte e as consequências práticas de cada caminho.
Também precisa perceber contradições, fazer as perguntas certas e entender que, muitas vezes, o principal problema jurídico não é aquele que o cliente apresentou inicialmente.
Como usar a IA a seu favor
Por isso, não vejo a IA como concorrente do advogado.
Vejo como uma ferramenta extraordinária para o cliente entender melhor o seu problema e para o advogado trabalhar com mais profundidade, rapidez e organização.
O que muda é onde está o valor do trabalho jurídico.
Já não basta apenas conhecer ou transmitir uma informação. É preciso validar as fontes, separar o relevante, identificar o que está faltando, formular uma estratégia e assumir responsabilidade pela orientação dada.
Use a IA. Leve a análise ao seu advogado. Faça perguntas melhores.
Só não confunda confiança na escrita com segurança jurídica.
O vibe coding é fantástico.
O vibe lawyering pode ser útil.
Mas o Direito e a advocacia não podem ser conduzidos apenas na vibe.
Publicado originalmente por Vicente Donnici no LinkedIn. Ver post original →
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